Vislumbres do Real
Este texto parte do encontro com o trauma para abordar como numa Psicanálise pode-se abordar o Real e o impossível de dizer. Foi apresentado na Escola da Coisa Freudiana em 2023, publicado em Atas.
VERÔNICA FLEITH
Verônica Fleith
2/28/20263 min read
Um instante, ao acaso, modifica tudo. Inesperadamente, no que era para ser o contínuo da vida, algo se interrompe, e nada mais é como antes. De forma brutal e catastrófica, algo rompe com a noção da realidade e com os sentidos das coisas. É assim, que um evento traumático estabelece um divisor de águas, um antes e um depois, e o sujeito se vê diante do desamparo radical de não poder mais representar a si ou a sua existência. Um vazio angustiante.
Na Psicanálise este encontro com o traumático tem algo a dizer sobre o encontro faltoso do sujeito, impossível de representar. Remete ao trauma originário, onde, desde a incidência do significante no ser vivente, produziu-se um corte no gozo do ser. Algo aí se cancelou, se apagou, para dar origem ao significante. E paralelamente existiu a criação de um sulco por onde a pulsão se satisfaz, na repetição da marca da inscrição significante. Numa análise, a interpretação do campo do real do gozo como causa do movimento pulsional importa, além da interpretação do desejo inconsciente via encadeamento significante, pois remete à significação última / causa que participa da forma que o sujeito tem na vida de amar, relacionar-se com os demais, adoecer, fazer sintoma. Por mais que “Não há esperança alguma de alcançar o real por alguma representação”1 numa análise se vislumbra algo do real, pois este acontece, emerge, de forma inevitável, impactante e imprevista, via repetição.
Real que emerge pelas vias do trauma, do fracasso, do desencontro, do impossível, do encontro com algo que não vai. Também no interior do processo de análise. Ao narrar e interpretar um sonho, o analisante pode se deparar com uma parte do sonho cuja interpretação desemboca em algo oculto e obscuro. O umbigo do sonho. Ali um furo se evidencia, o sentido se esvai, uma opacidade se produz. Ou diante de uma interrupção, ruptura, corte na cadeia significante, no instante do lapso onde o sujeito do inconsciente tem uma aparição evanescente. Muitas vezes com efeitos de susto, de surpresa, de desconcerto.
“Quando... o espaço de um lapso, já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo. Mas basta prestar atenção para que se saia disso. Não há amizade que esse inconsciente suporte.” 2 Momentos evanescentes onde se testemunha a afânise do sujeito, especiais na escuta do analista.
Lacan, interessado em pensar em como o simbólico pode dar conta da dimensão real do gozo, fala do dispositivo analítico como um dispositivo cujo real toca no real, quando o encontra como impossível. Nos lembra "Que se diga fica esquecido por trás do que se diz em o que se ouve". 3 Há sempre algo que resta apagado, mas deixando vestígios. A escuta da enunciação, o que ex-siste como estranho e exterior aos ditos, que pode se manifestar como descontinuidade da fala, fracasso, buraco no saber, e que se revela de repente íntimo, a partir do entre-dito, de um semi dizer. A escuta da modalização particular que cada um faz de seus ditos, dos equívocos abertos pelo significante, ou de sua lalíngua. Também aí comparece o estranho íntimo do inconsciente, não somente na sua dimensão simbólica mas na sua dimensão real.
"O ser não está em nenhum outro lugar...senão nos intervalos, ali onde ele é o menos significante dos significantes, ou seja, no corte. O ser é a mesma coisa que o corte. O corte o presentifica no simbólico.”4 A interpretação, por via da pontuação ou do silêncio, tem a função de corte que presentifica algo do ser, no simbólico. Ficam restos, vislumbres do real, e não somente o rechaço a seu impacto. Será sempre a aposta da intervenção do analista.
Referências bibliográficas
1 - Lacan, Jacques (1974). A Terceira. Tradução de Ana Lúcia Teixeira Ribeiro. Texto de circulação interna da Escola da Letra Freudiana. Pág. 6.
2 – Lacan, Jacques (1976). Prefácio à Edição inglesa do Seminário 11. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567.
3 – Lacan, Jacques (1972). O Aturdito. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 448.
4 – Lacan, Jacques (1959). Seminário 6, O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2016, p. 437.
Bibliografia
Garcia-Roza, Luiz Alfredo. Afasias: Sobre a concepção das afasias de 1891. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2014.
Lacan, Jacques (1971-72). O Seminário, livro 19....ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2012
Pagliardini, Alex. Lacan al presente; per uma clinica del reale. Galaad Edizioni, 2020.
Soler, Colette. Lacan, O inconsciente reinventado. Rio de Janeiro.: Cia. De Freud. (2012)
Adventos do real: da angústia ao sintoma. (2015) São Paulo: Aller Editora, 2021.
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