Sobre o enigma do desejo feminino

Este texto foi resultado de trabalho em cartel, apresentado na Jornada de Cartéis da Escola da Coisa Freudiana em 2018, publicado em Atas. Percorre os textos freudianos e lacanianos, abordado os efeitos da função fálica e da falta significante nos caminhos do desejo feminino.

VERÔNICA FLEITH

Verônica Fleith

2/28/20266 min read

O desejo, no ser falante, é submetido e alienado ao campo da linguagem, ao significante; sendo inconsciente nem sempre coincide com o que o eu julga querer. Constitui-se a partir das demandas que foram nomeadas pelo Outro, que a partir de seu desejo significou o ser e suas necessidades. A partir desta alteração vinda do significante, o ser falante vive uma margem, uma hiância, que fará com que a partir do desejo do Outro certos objetos sejam valorados, como também em função desta hiância primeira. Constitui-se assim, num mesmo momento, o significante do falo e a falta significante. Os objetos do desejo passam a estar inseridos numa rede, num desfiladeiro de significantes por onde passa o desejo, fadado a um movimento de deslocamento e condensação dos significantes fálicos. O ser falante assim constitui sua realidade psíquica e busca também seu lugar como objeto desejado, aí buscando ser o falo, em relação ao desejo do Outro.

Freud e Lacan localizaram no Complexo de Castração um dos operadores chaves no desenvolvimento do psiquismo e nos caminhos e na maturação do desejo. A experiência da falta, diante da frustração da demanda, é transposta para a experiência da falta-a-ser que o falo estabelece. Freud falou de como se inscreve no inconsciente as consequências psíquicas da experiência da diferença sexual anatômica, que ressignifica a experiência da falta-a-ser, sendo que neste ponto da constituição subjetiva a possibilidade de perder o falo ou a vontade de tê-lo caracterizam a experiência do menino e da menina. Freud ressaltou no conceito da primazia do falo seu caráter significante, que permite os deslocamentos simbólicos para além do pênis, muito embora sua dimensão imaginária ancora-se na propriedade de aparecimento/ desaparecimento, ereção/ detumescência do pênis.

Freud destacou a consequência psíquica do penisneid nas mulheres que pode conduzi-las ao que nomeou complexo de masculinidade onde a reivindicação fálica, de ter o falo, pode ter papel marcante no desejo feminino. Outra consequência psíquica passa pela substituição, equivalência simbólica entre desejo do pênis e desejo de um bebê, de um filho, o que enseja para Freud a posição feminina. Assim, Freud vai circunscrevendo o que situa como um enigma da feminilidade a partir da alternância entre períodos em que ora a masculinidade, ora a feminilidade, predominam. Em Análise terminável e interminável1 ressalta que o grande enigma do sexo pode explicar uma atitude de difícil domínio num tratamento psicanalítico: o repúdio à feminilidade, sendo uma das dificuldades principais a serem transpostas no final de uma análise.

As consequências psíquicas da distinção anatômica dos sexos, descritas por Freud, são inscrições psíquicas inconscientes, portanto submetidas ao recalque na estrutura neurótica, e terão determinação nas vicissitudes do desejo. O desejo desliza pelos significantes relacionados a como a função fálica está inscrita em cada um. Lacan, em A significação do falo2 descreve como se estabelece a função fálica, decorrente do poder de significação do falo. A significação que o falo denota estabelece a razão do desejo, sua medida comum, permitindo que se constituam os semblantes que envolvem o parecer-se homem e o parecer-se mulher necessários à sexuação e em conformidade com o discurso social de cada época; participa da formação dos sintomas; permite ao sujeito sexuado responder às necessidades do parceiro sexual e permite acolher as necessidades da criança.

É no caminho de uma análise que se pode interrogar os efeitos da função fálica nos caminhos do desejo feminino bem como da falta significante, do que não tem registro. O significante da mulher não existe a nível do inconsciente, sendo somente circunscrito pelos semblantes da feminilidade que satisfazem em maior ou menor grau a função fálica. O inconsciente segrega o outro sexo, portanto.

Já como sujeito que interroga em análise os significantes a que está submetido, o analisante pode interpretar como consentiu em participar do circuito de trocas na dialética fálica que sustenta a fantasia e pode interrogar o mais íntimo de si, um gozo que escapa à lógica fálica e que pode ser estranhamente habitado por uma força desconhecida que determina certas repetições. O gozo não recoberto pelo significante deixa seus rastros, e, tal como um código de barras, pede decifração a partir da aparelhagem de linguagem própria de cada sujeito. No Seminário 20 Lacan pergunta: “De um lado, o gozo é marcado por esse furo que não lhe deixa outra via senão a do gozo fálico. Do outro lado, será que algo pode ser atingido, que nos diria como aquilo que até aqui é só falha, hiância, no gozo, seria realizado?”3

A análise permite um percurso de elaboração que, se por um lado oferece algumas respostas às questões inicialmente colocadas, vai paulatinamente interrogando um destino inexorável ao sujeito que a cada passo se aproxima mais da formulação do que seja o enigma de seu desejo. Esse destino inexorável do sujeito tem relação com o impossível, o que não cessa de não se escrever, e desta forma Lacan nomeia a lógica da ausência de relação sexual. Colette Soler4 fala em maldição sobre o sexo e em maldição do inconsciente. Mal dizer do inconsciente que sempre aponta na direção de um impossível.

Em 1957, no Seminário 5, Lacan falou do dilema insolúvel no qual a mulher está presa. E ressignifica o que Freud descreveu como o enigma da feminilidade. No que concerne a encontrar sua satisfação, a mulher a busca pela via substitutiva do desejo do pênis. No que concerne ao seu desejo se vê implicada na função fálica, como desejando ser o falo, objeto causa de desejo. O que tem como efeito uma Verwerfung, “uma profunda estranheza de seu ser em relação aquilo mediante o qual ela tem de parecer” 5. Em 1958, em A significação do falo: “é para ser o falo, isto é, o significante do desejo do Outro, que a mulher vai rejeitar uma parcela essencial da feminilidade, nomeadamente todos os seus atributos na mascarada.”6 Depois em 1971 no Seminário 187 trabalhará com o conceito de semblante ligado ao discurso: o fazer-se homem e o fazer-se mulher como efeitos de discurso que delineia os semblantes. O semblante articula-se dialeticamente à verdade de cada um na relação sexual. Sendo que a verdade de cada um tem relação com os objetos (mais de gozar) da pulsão e com a causa de desejo para cada um. Aqui trata-se das cartografias do desejo, das marcas de satisfação pulsional que insistem em se repetir e que participam das vicissitudes do desejo.

Lacan falou do gozo duplo das mulheres, do gozo fálico e do gozo feminino. Este pode ser relacionado com o efeito em cada mulher do inominável, no que diz respeito ao que não teve registro, a partir da hiância gerada com o advento do significante e do que não teve registro acerca de seu sexo. Gozo que, se por um lado pode causar ao saber uma inércia própria, pode também, por remeter à experiência do que para sempre e desde sempre esteve perdido, ser um vácuo que impulsiona cada sujeito a fazer disso uma causa e um ato criativo.

As mulheres (ou aqueles cujo sujeito em questão consente com o feminino) podem ser as melhores ou as piores analistas, lembra Lacan em O Outro falta (1980). Lacan neste texto ainda diz que, na condição de não se aturdirem de uma natureza anti fálica, “elas poderão escutar o que deste inconsciente não tem para se dizer, mas alcançando o que pode se elaborar a respeito, como, aí, procurando o gozo propriamente fálico.” 8

Portanto, o mal dizer do inconsciente e as emergências do real inominável vão formulando, em análise, o enigma singular de cada sujeito, e desta forma, o que vai se fazendo possível, é o bem dizer do desejo.

Referências bibliográficas

1 - Freud, Sigmund (1937). Análise terminável e interminável. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975, vol. XXIII, p 286-7.

2, 6 - Lacan, Jacques (1958). A significação do falo. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p.692 e 701.

4 - Soler, Colette (1996). La maldición sobre el sexo. Buenos Aires, Ediciones Manancial, 2000, p. 26. Tradução livre.

3 - Lacan, Jacques (1972). O seminário 20. Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 16.

5 - Lacan, Jacques (1957). O seminário 5, as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1999, p. 363.

7 - Lacan, Jacques (1971). O seminário 18. De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2009, p. 154.

8 - Lacan, Jacques (1980). El Otro falta. Texto obtido no site lacanterafreudiana.com.ar, em 20/09/2018. Tradução livre.

Bibliografia

Freud, Sigmund. (1900). A interpretação dos sonhos. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975, vol. IV.

Freud, Sigmund (1925). Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica dos sexos. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975, vol. XIX.

Freud, Sigmund (1931). A sexualidade feminina. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975, vol XXI.

Lacan, J. (1985). O Seminário, livro 2: o Eu na teoria freudiana e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1954-1955