O que se pode ver após a queda de algumas identificações

Texto apresentado na Jornada de Cartéis da Escola da Coisa Freudiana em 2014, publicado em Atas. A pergunta "quem fala em mim quando falo?" pode advir de uma surpresa com o ato de fala e colocar o sujeito em questão no processo de subjetivação em análise, interrogando as identificações com os semelhantes, grupos, textos, mestres, discursos, ideais e mandatos superegóicos.

VERÔNICA FLEITH

Verônica Fleith

2/28/20265 min read

A pergunta "quem fala em mim quando falo?!", pode advir de uma surpresa com a fala e colocar o sujeito em questão no processo de subjetivação em análise. A pergunta: "Em que medida minhas palavras resultam de uma identificação? Que identificação é esta?!" pode ser necessária ao considerar, no percurso de formação em Psicanálise, as identificações possíveis com os pares/semelhantes, grupos, textos, mestres e sua relação com os ideais e com os mandatos superegóicos do próprio sujeito.

Os laços ancorados em identificações podem amparar e conduzir em alguns momentos mas atrapalhar em outros. Agem como obstáculos ao movimento do desejo notadamente quando existe idealização, do outro ou mesmo do discurso aí praticado. Discurso que então pode se esgotar em repetições vazias e assim dificultar o progresso nas elaborações. As identificações podem fazer o sujeito se instalar num "eu sou/penso isto ou aquilo", que pode ser "sou freudiano", "sou lacaniano", e o movimento do desejo que pode conduzir ao desejo de saber ficar então reduzido a um discurso intelectualizado, a um pensamento sem sujeito.

Comecei o cartel ciente destes efeitos das identificações em meu percurso e disposta a pensar em como elas se constituem e sobre o efeito de sua queda, ao menos de algumas já em processo de subjetivação. Mas ao longo do cartel e na iminência de conclusão, restava a pergunta: Podemos pensar em fazer laços, em investir libidinalmente nos objetos, sem que, concomitantemente, interfiram aí processos relacionados à identificação?

Um sonho é produzido nas vésperas da escrita deste trabalho. Estava eu a retirar e a recolher decalques de uma parede. Dentre estes decalques, caía a imagem do Batman, que, diga-se de passagem, é um herói cujos esforços e habilidades investigativas representam um tributo aos pais mortos. Neste sonho, por mais que eu me esforçasse em limpar a parede, por debaixo daqueles decalques já recolhidos, restavam traços, marcas profundas, estas impossíveis de retirar. Na próxima cena, eu caminhava rumo a uma casa simples e singela.

Vi que queria escrever sobre tais marcas, que remetem às marcas de satisfação pulsional e sua relação com as identificações. Marcas que me movem, que não se apagam, mas que através das palavras podem ganhar contornos diversos e assim manter os caminhos da satisfação pulsional mais maleáveis. Menos aprisionadas nas formas que visam a realização da imagem narcisista de si e dos ideais concernentes.

No texto O Eu e o Isso Freud escreve sobre as bases da relação do eu com a pulsão. O eu, a organização que busca coerência dos processos mentais, comporta-se de modo passivo diante de forças desconhecidas e incontroláveis do campo pulsional, nomeadas por ele de isso. O eu toma de empréstimo as forças do isso, vale-se delas para formar suas estruturas, muito embora busque modificá-lo através da influência do mundo externo. Estas estruturas do eu são as identificações e a formação do ideal do eu e o super eu. O eu tem sua origem com as identificações primárias, quando o investimento libidinal no objeto e identificação se dão concomitantemente. Após sujeitar-se às catexias objetais do isso, e diante da perda do objeto ou da retirada do investimento libidinal direcionado a ele, o eu introjeta o objeto, identificando-se a ele. "Bem no início, toda a libido está acumulada no isso, enquanto o eu ainda se acha em processo de formação ou ainda é fraco. O isso envia parte dessa libido para as catexias objetais eróticas; em consequência, o eu, agora tornado forte, tenta apoderar-se dessa libido do objeto e impor-se ao isso como objeto amoroso."2 O eu, de certa forma, busca obter controle sobre o isso, colocando-se como objeto de amor, e realizando assim uma das vicissitudes da pulsão, o retorno ao próprio eu. Realizam-se investimentos de objeto e identificações sucessivas, sendo que "[...] a identificação esforça-se por moldar o próprio eu de uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado como modelo.”3

No Seminário 1 Lacan também aborda as relações do eu com a pulsão. "O outro tem valor cativante pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda realidade do semelhante."4 Trata-se do jubilação narcisista do eu ideal. Posteriormente o eu adquire nova forma, com a formação de um ideal do eu que é herdeiro das aspirações narcisistas e que carrega os traços que situam os sujeitos em classes tipificantes, a partir das exigências éticas e culturais dos grupos pertencentes. O ideal do eu insere o sujeito no plano simbólico, carrega as marcas da Lei e faz o comando do jogo das relações de que depende toda a relação a outrem.“E dessa relação a outrem depende o caráter mais ou menos satisfatório da estruturação imaginária.”5

Retornando às questões levantadas concernentes à formação e à relação com o saber. Em certos laços sustentados por identificações, o eu pode sentir-se amparado e conduzido, apesar do conforto experimentado aí ser transitório e susceptível ao colorido imaginário, amoroso ou hostil. Conforto este consequente de uma das vicissitudes da pulsão que confere ao eu satisfação narcísica.

Podem existir laços sustentados por idealizações, tal como em algumas situações do enamoramento, ou em certas formações de grupos onde os membros são unidos pela admiração ou até mesmo pela credulidade para com o líder. O objeto aí ocupa o lugar do ideal do eu e o sujeito assume um lugar apagado ou restrito diante da elevação dos atributos do outro ou de seu discurso, que pode ser visto como consistente e sem furos.

Outros laços podem ser sustentados por identificações que remetem aos ideais do eu do próprio sujeito. Aqui, pode existir um limiar tênue entre tomar o ideal do eu como norte simbólico e a submissão às exigências superegóicas. Tal limiar dependerá da relação com as pulsões e de como estas encontram satisfação nas exigências superegóicas.

Lembrando que o super eu é herdeiro das identificações do complexo de Édipo, mas também, e Freud escreveu sobre isso no texto O Eu e o Isso, é a primeira identificação, a identificação ao pai, e deriva portanto das primeiras catexias objetais do isso. Assim, está próximo do isso, sendo que este pode ser conhecido através das manifestações do super eu. Nos seus mandatos ditatoriais, expressa a intensidade da exigência pulsional e também a agressividade e a crueldade, que se dirigem contra o próprio eu, sendo estas uma consequência da pulsão de morte liberada no super eu pela desfusão das pulsões consequente das identificações.

Esforçar-se de forma heróica e ter habilidades investigativas como um tributo ao pai, tal como o Batman do sonho aqui narrado, seguir o mestre da fidelidade aos conceitos freudianos, ou buscar a coerência dos ditos já proferidos. Exemplos que falam não somente dos ideais do eu, que oferecem norte simbólico, mas da relação do sujeito com seu super eu. Por exemplo, o ‘compromisso com a palavra’ pode se converter numa tarefa difícil diante das exigências do super eu, como se significasse manter o compromisso e a razoabilidade com o que é dito. Mas a experiência com o inconsciente, que inclui interpretar suas formações, aceitar os enganos do eu e de suas identificações, favorece a queda das identificações e, assim, algo se torna mais leve. Acredito que novos e diferentes laços de trabalho são possíveis com a queda das identificações e com a atenuação dos mandatos superegóicos ao se dar lugar ao desejo e ao que se vive enquanto ressonâncias provocadas, no movimento do desejo, pelos encontros com o outro e com as palavras, sendo que estas podem ajudar a indagar e a construir algo sobre as coisas, sobre as marcas.