Contribuições para a discussão da função materna e a função da educação diante de crianças autistas

Este artigo foi um resultado da dissertação de Mestrado em Cognição, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano, desenvolvido na UFPR em 2012.

VERÔNICA FLEITH

Verônica Fleith e Tamara da Silveira Valente

2/28/202631 min read

Contribuições para a discussão sobre a função materna e a função da educação diante de crianças autistas

Verônica Fleith - Psicanalista, Mestre em Educação pela UFPR

Drª. Tamara da Silveira Valente - Professora Orientadora pela UFPR

Resumo

Este artigo aborda aspectos concernentes à estruturação do psiquismo a partir do conceito de representação proposto pela psicanálise, discutindo as condições necessárias para que as primeiras inscrições psíquicas sejam criadas e ancorem os demais processos de constituição subjetiva. O artigo finaliza com algumas reflexões sobre o ato educativo diante de crianças autistas, levando a considerar os limites da sua condição psíquica e a necessidade de manutenção do desejo do educador de que alguma ação ou palavra dirigida à criança possa favorecer nela uma abertura ao enlace com o outro e com a cultura.

Palavras-chave: autismo, representação, função materna.

Apesar das novas políticas de educação inclusiva, atualmente as crianças e adolescentes com transtornos psíquicos ligados ao autismo representam uma faixa da população estudantil que necessita de um cuidado especial frente aos processos educacionais e no entanto encontram-se ainda, muitas vezes, desassistidas. Acredita-se que a educação escolar promove um acolhimento institucional necessário a essas crianças e pode prevenir o agravamento de seus sintomas na medida em que elas não ficam confinadas ao isolamento, o que pode ser uma tendência nesses casos, e porque o ato educativo pode ter uma função importante na constituição do psiquismo dessas crianças. De acordo com uma leitura de orientação psicanalítica que tem sido bastante difundida atualmente em função de estudos e pesquisas concernentes ao tema, a educação pode ser terapêutica na medida em que pode ser mais um recurso além das intervenções clínicas necessárias para favorecer o desdobramento de alguns processos psíquicos das crianças bem como a ancoragem para os processos de estruturação do psiquismo que estão em vias de constituição. Acredita-se que ações educativas realizadas no ambiente da escola podem ter inclusive um caráter profilático, quando se percebem sinais precoces de risco no desenvolvimento da criança, podendo essas ações atuar no sentido de prevenir a instalação de quadros mais complexos da estrutura autística.

Os estudos concernentes à interface Psicanálise e Educação consideram as interrogações sobre as origens do psiquismo e sobre a relação entre o pensamento e a linguagem como importantes para se pensar a constituição de um psiquismo de um modo geral e do psiquismo da criança autista mais particularmente. Partindo-se do fato de que todo ser humano está inserido num contexto que envolve a relação com outros seres humanos e com um campo de linguagem (signos, símbolos, códigos verbais e não verbais compartilhados culturalmente) que antecede sua vinda ao mundo, poder-se-ia tecer uma pergunta sobre que condições são necessárias para permitir à criança criar, a partir dos primeiros encontros com o mundo exterior e com o seu corpo, as primeiras inscrições psíquicas a partir das quais os demais processos de constituição subjetiva irão ancorar-se. Na tentativa de contribuir para a discussão sobre a constituição do psiquismo como propõe a Psicanálise, outras perguntas podem ser lançadas: o que favorece a um bebê não somente a reviver as impressões sensoriais do entorno de seu corpo, passando a, partindo das primeiras inscrições psíquicas sobre suas vivências, desejar a revivescência da satisfação, evitando a dor e o desprazer? O que determina que no movimento de seu desejo, a revivescência da satisfação é buscada pela criança não só alucinatoriamente como também a partir do que oferece a realidade exterior? E nesse encontro com a realidade exterior, que condições são necessárias para que a criança possa construir um lugar como um Eu pensante, e a utilizar-se da linguagem desenvolvendo uma fala e também um discurso organizado? E em cada momento do processo dessa constituição, qual a função da mãe, do pai e do educador?

Acredita-se que, no âmbito da constituição do psiquismo da criança autista, algumas respostas a essas perguntas podem auxiliar os educadores e os pais a manterem suas apostas em encontros que sejam humanizantes, ou seja, encontros que, apesar da demonstração de barreiras e fechamentos defensivos apresentados por essas crianças, possam lhes favorecer aberturas para o laço ao outro. Neste artigo, buscar-se-á discutir um ponto central relativo à função materna e à instauração do laço dos pais e educadores com a criança que podem ou não existir dependendo de que encontros se estabeleçam entre o psiquismo da criança e dos participantes de seu contexto. Adotar-se-á aqui um posicionamento contrário à leitura que algumas pessoas fora do campo da Psicanálise fazem imputando erroneamente à teoria psicanalítica a ideia de que as mães das crianças autistas são culpadas pelo autismo de seus filhos, e embora reconhecendo que as funções materna, paterna e educativa sejam importantes na constituição de um psiquismo, acredita-se que esta constituição é muito mais complexa pois compreende as determinações do desejo inconsciente de todos os sujeitos envolvidos. Acredita-se aqui ser fundamental entender o que se passa no encontro da criança e do seu corpo com as funções ocupadas pela mãe, pelo pai e pelos educadores, e os efeitos desses encontros na constituição do psiquismo da criança. Na tentativa de realizar esse objetivo, este artigo inicia-se com alguns conceitos psicanalíticos que subsidiarão algumas tentativas de explicação das questões inicialmente propostas para, a partir deles, se pensar o desafio da educação diante das crianças autistas.

Na constituição do psiquismo de uma criança, um dos aspectos fundamentais refere-se às inscrições psíquicas resultantes do encontro da criança com o mundo exterior e com seu corpo. Isso conduz na teoria psicanalítica ao campo relativo ao conceito de representação. Freud em vários textos aborda o conceito de representação a partir do qual pensamento e linguagem se fundam, tendo iniciado esse debate ao estudar o aparelho psíquico em suas relações com o mundo externo e os efeitos dessa relação nas diferentes psicopatologias, dentre as quais as afasias, que são problemas ligados à palavra escrita e/ou falada. Freud diz que as palavras são compostas por associações de elementos visuais, auditivos e cinestésicos que provêm das impressões sensoriais advindas do objeto. O acesso ao objeto, para Freud, não se dá pelas sensações ou pela percepção em si, mas pelas suas associações. Freud utilizará os termos representação de coisa para se referir aos elementos visuais, auditivos, cinestésicos provindos das impressões sensoriais, predominantemente dos elementos visuais, sendo que as associações ligadas ás representações de coisa fornecem o significado às palavras. As palavras são formadas pela ligação entre as representações de coisa e as representações de palavra, sendo que estas são formadas pelo conjunto das imagens motora, visual e acústica, com predomínio desta última. (FREUD, 1891, p. 46-47).

A teoria representacional de Freud pode, dependendo da interpretação dos conceitos, num primeiro momento de sua obra, remeter a uma relação realista e direta do psiquismo com o mundo, sendo que nessa concepção as representações dependeriam do mundo externo. Isso aproxima a teoria psicanalítica das concepções filosóficas clássicas que se ocupam também do conceito de representação entendido como o resultante daquilo que o sujeito capta algo do que está no exterior. O problema da filosofia é relativo a como se dá a relação do sujeito cognoscente com o mundo, independentemente da forma como a representação se apresente, seja por imagem ou por ideia, seu conteúdo é explicado referencialmente, isto é, o conteúdo das representações mentais é dado tendo como referente um objeto, uma situação ou uma pessoa. Num segundo momento da obra freudiana, ou, de novo, dependendo de como interpretamos sua obra desde os primórdios da construção dos conceitos relativos á representação, em função de um equilíbrio de forças onde a economia libidinal tem papel de destaque, as representações não remetem à realidade material como se esta as determinassem enquanto causalidade externa, uma vez que as representações remetem à uma realidade interna, psíquica. Nesse sentido, a economia libidinal vai atuar em termos da busca do prazer e evitação do desprazer, vai atuar levando em consideração as quantidades de energia pulsional atuantes no psiquismo, e sempre ligadas às representações.

Freud coloca ênfase no domínio psíquico abrangido pelo termo representação, mas sempre lembrando sua vinculação ao conceito de pulsão que é um conceito que remete ao corpo e à economia libidinal. A pulsão é um conceito fundamental na teoria psicanalítica relativo sendo um conceito-limite entre o somático e o psíquico, pois a pulsão necessita de um representante psíquico para fazer alcançar à mente os estímulos somáticos. É importante considerar aqui que o termo representação faz um amálgama entre o somático e o psíquico, não sendo um conceito circunscrito apenas ao funcionamento cognitivo do psiquismo. É o psiquismo atrelado ao corpo e vice-versa.

Para falar das origens do psiquismo Freud serve-se do modelo de um aparelho reflexo. O psiquismo, diante de uma excitação sensorial, esforça-se para prontamente descarregá-la por uma via motora com vistas a manter-se o mais livre de estímulos possível.

As excitações produzidas pelas necessidades internas buscam descarga no movimento [...]. O bebê faminto grita ou dá pontapés, inerme. Mas a situação permanece inalterada [...]. Só pode haver mudança quando [,,.] chega-se a uma “vivência de satisfação” que põe fim ao estímulo interno. (FREUD, 1900, p. 515;516).

No texto Projeto para uma Psicologia Científica (1895, p. 483 - 517) Freud deu ênfase ao papel do que nomeou experiência de satisfação nas origens do psiquismo. Experiência esta que exige do psiquismo um trabalho referente à economia libidinal, ao administrar a energia fluente e ao produzir representações. Assim, um bebê, diante do que vem do exterior que o afeta, gerando prazer, produz uma marca mnêmica de satisfação. A partir dessa experiência de satisfação, e diante do ressurgimento de um novo estado de urgência, a criança buscará restabelecer o equilíbrio intrapsíquico reativando aquela marca mnêmica de satisfação. Esse parece ser o momento da criação das primeiras representações.

Um componente essencial dessa vivência de satisfação é uma percepção específica (a da nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnêmica fica associada, daí por diante, ao traço mnêmico da excitação produzida pela necessidade. Em decorrência do vínculo assim estabelecido, na próxima vez em que essa necessidade for despertada, surgirá de imediato uma moção psíquica que procurará recatexizar a imagem mnêmica da percepção e reevocar a própria percepção, isto é, restabelecer a situação da satisfação original. (FREUD, 1900, p. 516).

A via mais fácil, isto é, o caminho mais curto para reativar a marca mnêmica de satisfação será a alucinação que vai provocar o reencontro com o objeto da satisfação. A esse movimento Freud nomeou de alucinação primitiva. Essa alucinação primitiva pode ser vista nos momentos em que, por exemplo, um bebê faz movimentos com a boca, como se estivesse mamando, sem que efetivamente o esteja.

A alucinação conduz ao desapontamento e, por mais que haja uma descarga da excitação via motora, a fonte da estimulação, nesse exemplo a fome, não é saciada, conduzindo o aparelho psíquico a voltar-se para o mundo externo e ter uma busca de uma ação mais adequada a sua finalidade: o pensar surge nesse momento, inaugurando a possibilidade de que as representações não se igualem alucinatoriamente à percepção. O psiquismo precisa discriminar impressões e qualidades sensoriais a partir da atenção, abandonando o modo de satisfação baseado no princípio do prazer e buscando na realidade indícios da presença do objeto. Uma nova organização psíquica é formada, um primeiro eu, que busca diferenciar percepção da representação, pois segundo Freud:

o aparelho psíquico teve de decidir formar uma concepção das circunstâncias reais no mundo externo e empenhar-se por efetuar nelas uma alteração real. Um novo princípio de funcionamento mental foi assim introduzido; o que é representado não é mais aquilo que é agradável, mas aquilo que é real, malgrado que acontecesse ser desagradável. Este estabelecimento do princípio de realidade provou ser um passo momentoso. (FREUD, 1911,p. 278 - 279).

O fato de a descarga motora precipitada através da alucinação ser adiada promove a atividade do pensar. Pensar esse que ultrapassa as representações ideativas, ou seja, as associações advindas das experiências sensoriais ligadas ao prazer/desprazer corporal, e sendo dirigido para as relações entre as impressões dos objetos.

Assim, quando essa organização no psiquismo, o eu, passa a discriminar se a representação ideativa do objeto de satisfação pulsional existe na realidade, ou seja, se de fato encontra-se na realidade o objeto da satisfação ou o objeto que gere desprazer, terá uma função inibitória com vistas a gerar outras vias que não as da descarga imediata via descarga motora ou via uma alucinação, para a busca da satisfação ou evitação da dor. Assim, o eu é essa organização psíquica que inibe os processos psíquicos primários. Freud a esse respeito no texto Projeto para uma Psicologia Científica (1895) diz inclusive que um psiquismo pode cair em estado de inermidade e sofrer dano se, diante de um estado de desejo, catexiza a lembrança do objeto gerando somente uma ideia imaginaria do objeto, seja objeto de satisfação seja de dor. Nesses casos, pode haver imenso desprazer e uma defesa primária excessiva. (p. 437-441.) Para evitar isso, faz-se necessário a função de inibição do eu para permitir uma diferenciação entre a percepção do objeto e uma lembrança, ou seja, entre a percepção e a representação. A descarga só será efetuada, nesses casos, diante dos indícios da realidade, que faz com que não se catexize as lembranças desejadas além de certa quantidade. Faz-se importante a evitação da aflição, o que aconteceria com a catexia das ideias meramente imaginárias do objeto de satisfação ou de dor, o que Freud no texto “A interpretação dos sonhos” apontará essa função inibitória como o protótipo e primeiro exemplo do recalcamento psíquico. (FREUD; 1900, p. 544).

Thá (2007, p. 149) contribui dizendo que os pensamentos na teoria freudiana são em sua grande parte inconscientes e não verbais podendo prosseguir sem serem ligados ao signo linguístico ou podendo ser acessados pela consciência de forma, inclusive a exprimir as relações entre as representações de coisa, ao ligarem-se ao signo linguístico (p.157). Assim, antes de chegar à consciência, as representações de coisa ligam-se às representações de palavra, adquirindo nova qualidade e compondo os processos pré-conscientes. Para Freud,

estando ligadas a palavras, as catexias podem ser dotadas de qualidade mesmo quando representem apenas relações entre representações de objetos, sendo assim incapazes de extrair qualquer qualidade das percepções. Tais relações, que só se tornam compreensíveis através de palavras, constituem uma das principais partes dos nossos processos de pensamento. (FREUD, 1915b, p.231).

Em O ego e o id, Freud (1923) fala de como é possível pensar em figuras e de forma consciente sem necessariamente contar com a ligação com as palavras,

mediante uma reversão a resíduos visuais, e que, em muitas pessoas, este parece ser o método favorito. O estudo dos sonhos e das fantasias pré-conscientes, [...] pode dar-nos a ideia do caráter especial deste pensar visual. Aprendemos que o que nele se torna consciente é, via de regra, apenas o tema geral concreto do pensamento, e que as revelações entre os diversos elementos desse tema geral, que é o que caracteriza especialmenteos pensamentos, não podem receber expressão visual. Pensar em figuras, portanto, é apenas uma forma muito incompleta de tornar-se consciente.De certa maneira, também, ele se situa mais perto dos processos inconscientes do que o pensar em palavras, sendo inquestionavelmente mais antigo que o último, tanto ontogenética quanto filogeneticamente. (FREUD, 1923, p. 34-35).

Na Carta 52 de Freud a Fliess, de 1896, ele fala de vários níveis de registro de inscrição psíquica entre a percepção e a consciência, em que ele introduz a noção de sistemas, inconsciente, pré-consciente e consciente, sendo importante saber como ocorrem esses registros para se pensar nas diferentes constituições de um psiquismo. Inicialmente, existem inscrições sendo registradas a partir dos signos perceptivos, as impressões sensoriais, que formam os primeiros traços mnêmicos, aqui se localizando as representações (Vorstellungen). Existe um segundo registro, próprio ao sistema inconsciente, cuja organização das representações pressupõe uma relação causal sendo que alcançam o sistema pré-consciente se essas representações puderem ser traduzidas em palavras, se não puderem, permanecem no inconsciente. O fundamental a ser resgatado nesse texto é que as representações provêm dos processos perceptivos os quais produzem os traços mnêmicos, não significando que essas representações já pertençam ao sistema inconsciente, o que dependeria de uma complexificação, que dependeria por sua vez de como essas representações serão organizadas, sendo ou não traduzidas em palavras no sistema pré-consciente. Cabe lembrar que nesse texto Freud não deixa totalmente esclarecido o que propicia a organização das representações que formam o registro do sistema inconsciente o que será discutido brevemente ao serem trazidos os conceitos de Bleichmar.

Freud (1915a), no artigo A repressão, ao falar de quando o representante ideativo da pulsão é reprimido, isto é, de quando uma representação tem negado seu acesso à consciência, fala também de outro elemento ligado à pulsão, a cota de afeto. Esta pode sofrer destinos diferentes que a representação ideativa da pulsão: ou permanecer tal como é, ou ser inteiramente suprimida, ou ser transformada num afeto qualitativamente diferente ou transformada em ansiedade. O que Freud quer ressaltar com essa diferenciação é que “as representações ideativas são catexias – basicamente de traços de memória -, enquanto que os afetos e as emoções correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos” (FREUD, 1915b, p. 204). Para este trabalho é importante reter que a repressão pode inibir uma pulsão impedindo-a de se transformar em manifestação de afeto.

Cabe aqui considerar que o afeto é, na teoria freudiana, aquilo que dinamiza as ligações representacionais interferindo na sua organização e nas suas transcrições. O afeto pode sofrer vários destinos: conversão (descarga da excitação para o somático), deslocamento (a excitação permanece na esfera psíquica, mas ligando-se a outras idéias), rejeição (a representação e a excitação são excluídas da esfera psíquica, como se jamais tivessem existido) e projeção (a excitação se mantém transposta para um objeto externo). (FREUD, 1894, p 53-64)

A repressão afeta as representações e os afetos correspondentes na fronteira entre os sistemas inconsciente e pré-consciente. Algumas representações permanecem capazes de agir no inconsciente, tendo sua catexia preservada, ou recebendo novas catexias do inconsciente ou ainda podendo não ser catexizadas. (FREUD, 1915b, p. 207). Percebe-se aqui que as alterações energéticas são importantes para se pensar os destinos das representações, isto é, as transcrições possíveis, nos diferentes registros que formam o aparelho psíquico.

Freud no texto sobre o Inconsciente retoma os conceitos de representação de palavra e de representação de coisa e fala em representação de objeto de uma nova forma:

O que livremente denominamos de representação consciente de objeto pode agora ser dividido na representação da palavra e na representação da coisa; a última consiste na catexia, se não das imagens diretas da memória da coisa, pelo menos de traços de memória mais remotos derivados delas. [...] a representação consciente abrange a representação da coisa mais a representação da palavra que pertence a ela, ao passo que a representação inconsciente é a representação de coisa apenas. (FREUD, 1915b, p. 229-230)

Freud, nesse texto, ao remeter à questão da esquizofrenia, fala do superinvestimento na representação de palavra em função do abandono das catexias aos objetos. Esse superinvestimento na representação de palavra é uma tentativa de sarar e restabelecer conexão com os objetos que foram perdidos.

Na esquizofrenia as palavras [...] passam por uma condensação, e por meio do deslocamento transferem integralmente suas catexias de umas para as outras. O processo pode ir tão longe, que uma única palavra, se for especialmente adequada devido a suas numerosas conexões, assume a representação de todo um encadeamento de pensamento [...]. O que dita a substituição não é a semelhança entre as coisas denotadas, mas a uniformidade das palavras empregadas para expressá-las. (FREUD, 1915b, p. 227-229).

Para Marie-Christine Laznik (2004, p. 135-137), o que Freud está dizendo nesse texto é que, na esquizofrenia, o que fracassa não é a tradução em representação de palavra, mas a perda de investimento na representação de coisa no registro do inconsciente. Para ela, um defeito relativo ao registro do inconsciente aconteceria também no autismo: uma incapacidade de investimento pulsional na representação inconsciente do objeto (vorstellungrepräsentanz). Ainda para ela, no autismo existem traços mnêmicos desinvestidos o que impede a organizaçao de trilhamentos para as representações. Esta incapacidade de representação inconsciente do objeto relaciona-se com o que essa autora conceitua como a não instalação do circuito pulsional completo.

Para definir este conceito, Laznik resgata o texto de Freud sobre As Pulsões e seus Destinos, de 1915, no qual ele descreve um trajeto pulsional composto de três tempos. Por exemplo, na pulsão oral, no primeiro tempo, o bebê vai em busca do seio, “apoderando-se” dele para a sua satisfação. No segundo tempo, ele torna-se capaz de uma satisfação autoerótica alucinatória através do simples movimento do chupar, ou do chupar o dedo ou ainda uma chupeta, dentre outros objetos que lhe façam sentir o prazer de sugar. No entanto, Laznik (p. 27-28) salienta a importância do terceiro tempo, ao que ela nomeia como satisfação pulsional, tendo sido apontado por Freud como o fazer-se um novo sujeito, em que o bebê se satisfaz oferecendo seu corpo para o prazer da mãe, mas existindo nesse momento um prazer compartilhado entre mãe e bebê, quando, por exemplo, o bebê oferece seu dedo ou seu pezinho prazerosamente em direção à boca da mãe.

Retornando ao texto de Freud (1915b) O Inconsciente, ele fala em desinvestimento pulsional, em catexias objetais abandonadas, deixando margem a pensar que essas catexias então nem sofreriam o destino da repressão pois estariam desinvestidas, e não passariam a ser retranscritas como representações de coisa no registro do inconsciente atreladas às representações de palavra que poderiam vir a lhes ser correspondentes.

Para entender a formação do registro do inconsciente passa-se aqui a trazer alguns conceitos de Bleichmar .Em seu livro A fundação do inconsciente (2009a), ao interrogar e aprofundar conceitos da metapsicologia psicanalítica, aborda o tema da instalação das representações que dão origem ao inconsciente e que transformam a cria humana em um ser humano sexualizado e atravessado pela cultura. Bleichmar diz que o outro que se ocupa dos cuidados com a criança, geralmente a mãe ou seu substituto, ao tratar do corpo da criança com desejo, assim institui tanto a ordem da sexualidade no corpo da criança quanto propicia as ligações associativas que produzem os derivados nos rumos das ligações entre as representações. A mãe, quando se ocupa do alívio às tensões biológicas da criança, introduz outras tensões, de ordem sexual, ligadas ao prazer das zonas erógenas corporais, tensões que não são solucionáveis por meios físico-químicos, tais como o que é da ordem da nutrição, do calor, por exemplo. Essas outras tensões ficam então abertas a todo tipo de simbolizações e constituindo-se no “motor do progresso psíquico”. (BLEICHMAR, 2009a, p. 11-12).

Por tensões de ordem sexual se quer dizer que, além de dar o seio, a mãe toca no corpo da criança erotizando-o, fala com entusiasmo da criança e canta carinhosamente (utilizando-se da linguagem própria do ´mamanhês´), e, assim gera um a mais de prazer. Isso faz com as tensões da criança vão além da necessidade autoconservativa e sim remetam a processos de pulsação que dão origem “às inscrições dos objetos originários, e em seus aspectos ligadores, de abertura aos sistemas desejantes a partir de novas vias de prazer que não fiquem reduzidas nem fixadas à satisfação pulsional mais imediata.” (p 13). Ou seja, o que Bleichmar diz é que essas tensões de ordem sexual favorecem que a criança não fique fixada somente à satisfação oral, por exemplo.

A perspectiva de Bleichmar traz para o interior das discussões psicanalíticas o paradigma do originário que é fundamental ao se pensar nos transtornos precoces, pois permitem pensar o antes e o depois dos tempos da fundação do inconsciente. O inconsciente, que não existe desde os primórdios, é concebido por Bleichmar como

um produto da cultura fundada no interior da relação sexualizante com o semelhante, e, fundamentalmente, como produto da repressão originária que oferece um topos definitivo para as representações inscritas nos primeiros tempos dessa sexualização. (BLEICHMAR, 2009a, p. 17, tradução nossa).

O mesmo adulto que sexualiza a criança mediante a erogeneização é o que produz um contrainvestimento a essas representações ao instaurar um sistema que contempla permissões, proibições, interdições, que podem vir através do silêncio, ou daquilo que é dito ou do tom da voz utilizado para dizê-lo ou de certos gestos. A partir do momento em que há a erogeneização e um contrainvestimento, essas representações irão compor o inconsciente da criança na medida em que serão recalcadas. Introduz-se uma defasagem entre palavra e ato, algo que pode ser sentido como bom e prazeroso pela criança, mas que ao ser dito ou expresso pelo adulto como não bom e proibido, pode ser, pela criança recalcado. Aquelas representações farão parte das representações de coisa recalcadas, podendo vir a ser traduzidas ou não em representações de palavra, posteriormente. Bleichmar concorda com Freud ao considerar a repressão originária um dos destinos da pulsão e a complexificação dos seus destinos possíveis, “o verdadeiro motor do progresso psíquico”. (p. 33).

Retomando-se a discussão acima, no início deste artigo foi dito que o conceito de pulsão é um conceito-limite entre o somático e o psíquico, que requer um representante psíquico, a representação, para fazer alcançar à mente os estímulos somáticos. A pulsão está relacionada às excitações endossomáticas, cuja quantidade energética conduz a movimentos de descarga, uma vez que o aparelho psíquico precisa ter meios de resolução das tensões energéticas. A ação específica do outro é aqui fundamental porque ao mesmo tempo em que alivia as tensões autoconservativas, introduz novas tensões, ligadas já ao sexual no sentido amplo, como, por exemplo, o prazer provindo do toque, da voz, do cheiro, do olhar de quem realiza a ação específica.

Bleichmar (2009a) ao abordar a problemática do autismo se pergunta o que aconteceria se um bebê, diante da resolução das tensões ligadas à autoconservação, tendo o alimento necessário e livre de qualquer dor, tem um fluxo energético cuja descarga conduz a zero, ou seja à homeostase. Essa autora aqui coloca a hipótese de que possam se desenvolver quadros de autismos extremos nesse bebê “nos quais a diminuição das tensões autoconservativas não propicia, de modo algum, que um sistema de representações se complexifique e fique independente da imediatez da necessidade.” (p. 37), associando tal manifestação ao que Freud nomeou de eu real, “um organismo vivente anterior a toda instalação pulsional” (BLEICHMAR, 2009a, p.37). Acredita-se que esses momentos cuja descarga de energia circulante conduz a zero possam até ser míticos, quando considerados em seu extremo. Nos casos menos severos, o bebê que continuamente submetido às estimulações exógenas e endógenas, volta-se para a revivescência da satisfação ou da dor, encontra-se aí com o outro e seu contexto. Nesse encontro, além do que está ligado à autoconservação, os estímulos excitatórios ficam remanescentes, por exemplo a partir de quando a mãe acariciou a mão do bebê, mexeu em suas perninhas, cantou, soprou, sorriu, etc. Desse modo o bebê cria um conjunto de representações que permite que a pulsão, continuamente estimulando o bebê, possa encontrar formas de ligação por vias colaterais, favorecendo que o bebê preste atenção ao que a mãe oferece e se mantenha ligado nisso. Bleichmar fala nesse mesmo texto de uma rede composta por um sistema de ligações que permitem a construção do eu.

Sistema de ligações que posteriormente, quando se instale a repressão originária, oferecerá o entramado de base, as ligações que possibilitam que a repressão não fique pontualmente operando como um contrainvestimento do inconsciente, mas constituída por um conjunto de representações mediadoras. (BLEICHMAR, 2009a, p. 43, tradução nossa).

Retornando à questão aqui colocada sobre a fundação do inconsciente, tem-se que ele se relaciona com os destinos possíveis da pulsão. Um dos destinos da pulsão é o recalque/repressão, que ocorre quando as representações pulsionais são impedidas de alcançar a consciência em função de uma defesa, de um contrainvestimento provindo geralmente das interdições parentais, que acarretam numa renúncia pulsional. A partir desse momento, no inconsciente ficam os representantes representativos pulsionais que para Bleichmar dizem respeito à sexualidade do outro, da mãe, metabolicamente inscritos no psiquismo inicial. (BLEICHMAR, 2005, p. 97).

Desse modo, as representações são inscritas de modos diferentes, com potencialidades simbólicas diferentes pois organizam-se de formas diferentes, sendo investidas, catexizadas, de maneiras diferentes. É o que antes Freud falou sobre os investimentos ou desinvestimentos pulsionais.

Retomando os conceitos de Bleichmar, para quem a função da mãe é sexualizante e narcizante. A mãe, além de erogeneizar o corpo do bebê, também o envolve com representações acerca de si mesmo que sejam narcizantes, por exemplo: o pezinho do bebê, ou as fezes do bebê, transformam-se em ´objeto preciosos´ e que se situam do lado do inconsciente materno, de suas “representações de coisa que circulam sob modos do processo primário e dos investimentos massivos do autoerotismo recalcado”. (BLEICHMAR, 2009a, p. 48), estando pois a mãe sujeita ao dinamismo de seu psiquismo e de seu inconsciente.

A função materna, assim constituída, sexualizante e narcizante, é fundamental na estruturação dos sistemas psíquicos da criança. A introdução da criança ao narcisismo é um tempo na constituição do psiquismo que permite posteriormente a entrada da criança na triangulação edípica e nas instâncias ideais que dela derivam. Narcisismo é para Bleichmar a premissa necessária para o contrainvestimento do autoerotismo, para o funcionamento dos sistemas diferenciados (inconsciente, pré-consciente e consciente), mas também o terreno no qual circulam os abrochamientos (fechamentos) passionais que capturam o eu, nos qual se instalam as cegueiras defensivas que obturam os movimentos desejantes. (p. 14).

Pensa-se que cabe a quem exerce a função materna erotizar e exercer uma repressão trazendo a criança para o campo do narcisismo. Mas a função materna exercida dessa forma é condição necessária mas não suficiente na constituição do psiquismo, que também depende de como o bebê vai aderir ou consentir com as ações específicas vindas do outro e de seu desejo, ou então, de que sistemas defensivos precisará precocemente erigir contra a “captura” do desejo e da função materna. Os motivos para o tal consentimento ou para o tal fechamento podem remeter ao insondável, e podem dizer respeito ao psiquismo da criança face ao encontro com o psiquismo da mãe e do casal parental, concordando-se com Aulagnier (2010) que aborda a importância de se considerar o psiquismo do casal parental, ou de como o pai, existente ou não, influencia o psiquismo da mãe em relação à criança.

Ao falar do pai como o primeiro representante dos outros, Aulagnier fala da importância não somente de sua nomeação no desejo da mãe, mas enquanto alguém que tem um desejo em relação à criança. No encontro dessa criança com o pai, o prazer é desvinculado da ordem da necessidade, como era até então em relação à mãe, passando ele a ser alguém a quem a criança quer seduzir, ou pode representar alguém a quem odiar, na medida em que a criança percebe que a mãe parece obedecer à voz proibidora do pai, retirando do desejo e do poder da mãe um caráter absoluto. (AULAGNIER, 2010, p.153).

O que se pode verificar a partir dos fenômenos observados no autismo infantil é que a criança não pôde constituir-se psiquicamente enquanto alguém interessado em objetos que remetam á satisfação das zonas erógenas cujas vias geralmente são abertas à criança a partir da função materna. E, com isso a criança fica impossibilitada de simbolizar o prazer da zona erógena e o prazer advindo com tais ou quais objetos. O que impossibilitou a essa criança acolher os caminhos eventualmente oferecidos para o trilhamento das representações ligadas à satisfação, aqueles que poderiam estabelecer diques a uma satisfação que se mostra dispersa com as impressões sensoriais vindos de seu corpo e de seu entorno? Para tecer algumas hipóteses, na tentativa de responder, a essa pergunta serão buscadas outras contribuições de Bleichmar e Aulagnier.

Conflitos na construção inicial do psiquismo podem se presentificar, e Bleichmar e Aulagnier falam sobre uma necessária metabolização dos elementos exteriores a um sistema interno em busca de equilíbrio intrapsíquico, um movimento que permita à criança tomar para si e rechaçar para fora de si alguns desses elementos. Concordando-se com as autoras, coloca-se aqui a hipótese de que o ser humano precisará ativar certas representações ou transcrevê-las para atingir tal fim. Diante dessa hipótese, um problema diz respeito a como manter o equilíbrio psíquico frente a elementos heterogêneos que vêm do exterior que são percebidos pela criança como excessivamente estimulante, que criam dificuldades para o psiquismo metabolizar e simbolizar, designado na Psicanálise como traumatismo. Dependendo da seriedade do traumatismo e também das possibilidades metabólicas do sistema da criança, o psiquismo pode se recompor ou não. Muitas vezes, a criança necessita fechar-se à recepção de alguns estímulos, gerando algum campo de diferenciação entre o exterior e o interior, uma vez que experiências cujos estímulos são excessivos, tendo um caráter traumático, podem desmantelar o ser.

Não necessariamente, o psiquismo de uma criança favorece que ela possa aderir aos símbolos pactuados na linguagem e na cultura. Sua estruturação psíquica pode nem mesmo favorecer que ela seja permeável à palavra, ou seja, a criança pode nem mesmo consentir com o laço com o outro humano, isso vai depender de como estão inscritas e metabolizadas as representações, se existem representações pulsionais investidas e de como essas representações são organizadas e retranscritas. Para Freud, elas possam ser retranscritas para o sistema inconsciente e também, se ligarem com as representações de palavras pertencerem ao pré-consciente, podendo chegar assim à consciência. Mas esse processo está intimamente ligado primeiramente com o investimento pulsional aos objetos, e posteriormente com processos relativos à configuração do eu como um objeto e da possibilidade de se eleger um objeto de amor, sendo que esses últimos processos, no entanto, não serão aqui abordados por se acreditar que a constituição de uma criança autista não chega a realizá-los.

Não é incomum para quem convive com crianças a percepção de que crianças pequenas freqüentemente lançam-se num encontro com objetos que prioritariamente lhes faça sentir a sensorialidade do corpo, colocando, por exemplo, tudo o que vem à boca, mas, quem trabalha com crianças com transtornos psíquicos graves constata que isso ocorre de formas não usuais. Não é incomum ver crianças como essas demonstrando prazer em lamber a água do ralo, ou levar a língua para lamber minhocas, para mastigar cabelo, exemplos que até causam certo horror, mas os quais fazem levantar a hipótese de que essas crianças quando estranhamente encontram-se totalmente absortas pelo encontro com um objeto, que pode ser o encontro da boca com a água do ralo, da língua com minhocas, estão a buscar sentir um conglomerado de impressões sensoriais e estão a recriar representações, engendradas a partir das primeiras inscrições ante o encontro com o objeto de satisfação, muito embora pode-se dizer aqui que se trata de uma “estranha satisfação”, sem que possamos comprovar se isso tem para a criança qualidade de prazeroso ou desprazeroso. E, ampliando a hipótese, que essas crianças, ao fazerem isso, nesse momento não abrem a possibilidade de que os significados de aversão ou até mesmo susto, (“isso é caca” ou “isso é sujo”, por exemplo), vindos do outro e relativos ao objeto (água do ralo, minhoca, cabelo, por ex.), se inscrevam.

Ao se abordar a gênese do pensamento das crianças, pode-se dizer que as primeiras representações são partes ou indícios do objeto que se inscrevem no psiquismo como signos de percepção. É somente com o investimento propiciado pela função sexualizante de quem se ocupa da função materna, conforme Bleichmar, que poderá haver uma organização das representações, um trilhamento, conforme Laznik, uma criação de bordas corporais que estabeleçam o dentro e o fora, o bom e o ruim, o prazeroso e desprazeroso. Tal momento propicia também a criação de sistemas intrapsíquicos que levam a uma diferenciação entre o que é permitido e o que é proibido, entre as representações que permanecem inconscientes e as que podem ser acessadas pelo sistema pré-consciente e consciente, conforme Freud. Para que um pensamento, que resulta da ligação entre as representações, e que sendo a princípio inconsciente, possa alcançar a qualidade de ser consciente estabelecendo as relações entre as coisas, é necessário ligar-se às representações de palavra, e aí consentir com o uso pactuado por falantes da mesma língua do código linguístico, o que requer o trabalho do processamento secundário das representações, bem como das articulações próprias do pensamento secundário, conforme Freud.

Ao falar das retranscrições, Bleichmar (2009), fala que elas são efeitos de ações provindas do exterior, de ativamentos, enriquecimentos, algo que se inscreve a partir do exterior e retoma algo do interior do psiquismo, favorecendo o processo de simbolização. Por exemplo, uma mamadeira pode ser acrescentada à vivência de satisfação com o seio, um elemento vai (o seio) e outro elemento fica (a mamadeira), isso são retranscrições. O mesmo acontece quando se oferece à criança a língua (BLEICHMAR, 2009, p. 372), pois

O outro humano oferece o conjunto de códigos e oferece a possibilidade do codificável. O sistema da língua vai permitir um ordenamento de significação e transcrição onde uns elementos podem ser transcritos e outros não o serão nunca: repressão originária. Ficarão por contrainvestimento fixados para trás. [...] Que quer dizer que oferece a possibilidade do codificável? Que ao oferecer a estrutura da língua abre a possibilidade [...] de significar ou não, ou transcrever ou não elementos que ficam inscritos para trás. (BLEICHMAR, 2009b, p. 373).

Fazendo, então, um exercício de pensamento para tentar entender o que poderia passar na cabeça de uma criança com severos danos na relação com o mundo, que se encontra numa situação traumática da qual seu sistema não dá conta de simbolizar, pode-se pensar que, nela, em função de uma hipersensibilidade ao estímulo exterior haja uma necessidade de fechamento, pois, diante do que está posto para essa criança há um sofrimento muito intenso. Assim, uma criança autista ou psicótica pode apelar para mecanismos extremos para defender-se, erguendo barreiras contra a realidade, de forma a, inclusive, perder o contato com ela. Em outras situações semelhantes à exposta acima, o sistema impede que o novo possa ser integrado, fazendo romper o sistema que não pode se recompor, passando a funcionar em modos parciais. Uma criança autista pode, por exemplo, se incomodar com muitas falas em seu redor, pode sentir essa estimulação que vem do outro como muito intensa e invasiva, e pode bater sua cabeça na parede insistentemente ou tapar os ouvidos. Neste caso, se poderia pensar que a representação da voz do outro e do sentido de suas palavras possa não estar investida – catexizada – por um quantum de energia, ou de afeto, que permita a essa representação ser inserida numa rede de significações relacionada ao prazer de ouvir.

Pensando nos efeitos de representações que não foram suficientemente imersas numa rede de significações que gere equilíbrio intra-psíquico, Silvia Bleichmar (2009), no livro Simbolizacion e Inteligencia, aludindo a um fenômeno comum em todas as estruturas psíquicas, diz que

Existem representações com tendência permanente a passar à motricidade na medida em que não tem simbolizações que as capturem; o problema consiste em saber que tipo de representações são e que consequências têm para a vida do sujeito. (BLEICHMAR, 2009, p. 38, tradução nossa).

Falando de crianças nas quais já se instalou um quadro de autismo, como já exposto, o que se observa é que, desde bebê, a palavra não produziu efeitos sobre essa criança, sendo que com mais idade isso pode continuar a acontecer, ou seja, a criança continua a não acolher o que vem dos outros enquanto palavra, ou mesmo até fazer uso de algumas palavras, mas de modo repetitivo, sem ligar a palavra ao afeto que a ela poderia estar relacionado, ou seja, deixando transparecer que tais palavras não fazem “sentido” para essa criança; como parece demonstrar um exemplo já citado aqui, em que a criança parece não registrar (Pode não registrar, voltando a um,) a palavra e o significado relativos a “caca” ao (quando) aproximar a sua boca do ralo ou de outros objetos que aos outros costumam causar nojo.

No campo educacional é importante que o educador que trabalha com essas crianças tenha em mente que, por mais que suas intervenções e sua palavra sejam necessárias às crianças que ergueram barreiras defensivas extremas, nem sempre sua palavra será suficiente para retirar a criança do alheamento que ela se coloca nem da recusa de contato. Isso ocorre na medida em que seu processo de busca de equilíbrio intrapsiquico, via metabolização das representações, mantém a criança aderida e fixada a certas repetições de impressões sensoriais advindas do seu corpo e do entorno mais imediato, que a impedem de construir uma organização egóica que consinta e integre os trilhamentos que visam a sua satisfação pulsional ofertados pelo outro. É relevante admitir que existe uma atividade do pensar nessas crianças enquanto um desdobramento de suas representações, mas é um tipo de pensar que tem uma natureza diferente, provavelmente muito baseado nos resíduos visuais, tal como disse Freud.

Do mesmo modo, a sua fala, embora eventual, também expressa um dinamismo psíquico diferente, pois observa-se que muitas crianças autistas falam, mas, considerando-se que já lá no início nem todas conseguiram entender o sentido do som, e, posteriormente, o sentido das palavras, suas falas tendem a ser estereotipadas, baseadas na imitação, como se a representação estivesse totalmente desligada do afeto. Para evitar a instalação de um quadro irreversível, ou mesmo para atenuar essas manifestações, o educador, movido por um desejo em direção à criança, diante de uma criança cuja estrutura tenda a se estruturar no autismo, o educador precisa, por um lado, refrear suas ambições educativas e considerar os limites da condição específica que o psiquismo de cada criança impõe, e, por outro lado, não ficar focado no déficit da criança, mas, sim, apostando na sua singularidade, perpetuando a manutenção do desejo de que alguma ação, algum som, alguma palavra dirigida à criança possa favorecer nela a abertura ao sentido desse som, dessa palavra, dos bons e maus encontros com os demais, dando-lhes a significação possível, abrindo-se para a vida, afinal.

Jean-Claude Maleval, na Revista Ornicar (2007), faz um estudo interessante em que narra e comenta os métodos de educação baseando-se nos relatos de pós-autistas. O autor, a partir de diversos relatos, conclui que a educação com base na paparicação, ou no binário recompensa-punição não tem validade diante das crianças autistas, pois essas crianças não compreendem o seu sentido, e talvez nem se incomodem com privações e recompensas, já que dificilmente estão interessadas em algo em específico e, possivelmente não entenderão o sentido de uma privação ou de um “a-mais” como recompensa. Acredita-se aqui que mesmo que algumas crianças autistas possam eventualmente estar interessadas em algo específico, tendo pois sido inscritas em seu psiquismo a representação de algumas bordas corporais como um espaço para sua satisfação pulsional, o fundamental é que ela continue a representar o dentro/fora, o bom/ruim, o prazeroso/desprazeroso no encontro com objetos e pessoas, a fim de que essa criança possa e queira conviver com os demais. Mas o que se discute nesse trabalho é que, uma educação inspirada pela psicanálise pode levar em conta a escuta do sujeito cuja enunciação demonstra suas defesas e suas angústias, o conforto encontrado em alguns objetos e espaços, sua necessidade de conviver com outras crianças a quem possam imitar, ancorando dessa forma processos de constituição de seu psiquismo que são primitivos, pois anteriores aos processos de identificação que configuram o eu, mas necessários a manutenção de um certo equilíbrio intrapsíquico permitindo a sua circulação social. Uma educação assim orientada tem mais chances de considerar a singularidade de cada criança, incluindo o que cada criança possa interrogar do saber do educador, da instituição, do clínico, saberes esses que possam continuamente se renovar com o olhar das crianças autistas, pois, como já dizia o poeta,

Pensar é mais interessante

Que saber, mas é menos

Interessante que olhar.

Goethe

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AULAGNIER, P. (1975) La violencia de la interpretación, del pictograma al enunciado. Buenos Aires: Amorrortu, 2010

BLEICHMAR, Silvia. Clínica Psicanalítica e Neogênese. São Paulo: Annablume Edit, 2005.

__________. (1993) La fundación de lo inconciente: Destinos de pulsión, destinos del sujeto. Buenos Aires: Amorrortu, 2009a.

___________. Inteligencia y simbolización. Una perspectiva psicoanalítica. Buenos Aires, Editorial Paidos, 2009b.

FREUD, Sigmund. (1891) A interpretação das afasias. Lisboa/Portugal:Edições 70, 1977.

_______ (1894) As neuropsicoses de Defesa, in Obras Completas. Vol III. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1974.

_______ (1895) Projeto para uma Psicologia Científica, v. I

_______ (1900) A interpretação dos sonhos, parte II, vol. V.

_______ (1911) Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental, vol. XII.

_______ (1915a) A repressão, vol. XIV.

_______ (1915b) O inconsciente, vol. XIV.

_______ (1923a) O ego e o id, vol. XIX.

LAZNIK, M.-C.; textos compilados por Daniele Wanderley. Salvador: Ágalma, 2004.

MALEVAL, Jean-Claude. Quel traitement pour le sujet autiste? Paris, Revista Digital Ornicar, n 307, 2007.

THÁ, Fabio. Categorias Conceituais da Subjetividade. São Paulo, AnnaBlume, 2007.