A aposta de Pascal. Do mercado do gozo e do infinito.

Quais os elementos em jogo nas nossas apostas e investimentos de desejo? Este trabalho é fruto das elaborações do cartel "A Aposta", apresentado na Escola da Coisa Freudiana em 2016, publicado em Atas.

VERÔNICA FLEITH

Verônica Fleith

2/28/20266 min read

Pascal foi um filósofo, matemático, físico e escritor francês do séc. XVII, cujo discurso contribuiu na edificação da moral moderna baseada na ideia do Bem através da renúncia ou moderação dos prazeres. Na edição de Port Royal de seus Pensamentos, no aforismo 233, Pascal falou do Infinito: "O finito é aniquilado na presença do infinito, e se transforma num puro nada. [...] Sabemos que existe um infinito, e somos ignorantes de sua natureza. Tanto quanto sabemos que é falso que os números são finitos, e que é verdade que existe um infinito nos números. [...] Assim podemos também saber que existe um Deus mesmo não sabendo o que ele é."1 Pascal desenvolveu seu argumento dizendo que, diante da ausência de provas, não se pode saber se Deus existe ou não existe. A moderação das paixões poderia então auxiliar a ter fé e por consequência saber da sua existência. Alertou que existe um jogo praticado na extremidade da distância infinita entre Deus e os homens, ou entre o infinito e o nada, e resta decidir em que lado cada um está. Em que apostar, Deus existe ou não existe? Se você ganhar a aposta, ganha tudo. Se perder, perde nada. Assim postulou o que ficou conhecido como a Aposta de Pascal que resumimos da seguinte forma: ao se admitir que não se pode ter certeza na existência de Deus, mas sabendo-se da própria finitude, é mais interessante para o sujeito apostar na existência de um infinito localizado na ideia de Deus e na infinidade de vidas infinitamente felizes após a morte.

Podemos pensar que existe, portanto, na Aposta de Pascal, um discurso que instaura um mercado do gozo, pois, neste discurso, ao partir-se do finito desta vida, que é considerada um nada, ela entra como elemento de valor no jogo através da renúncia aos prazeres, e joga-se com a possibilidade de ganhar o infinito após a morte. A aposta é aí um ato de fé, fé no universo do discurso. Deus é também um fato do discurso, não importando sua existência. Ao sujeito, resta apostar ou mesmo dobrar a aposta. Resta jogar, moderada ou apaixonadamente.

Freud (1930) falou no mal estar advindo na renúncia ao gozo imposto pelo discurso civilizatório como também, no Mais além do princípio do prazer (1920), em práticas do gozo que contradizem a lei do princípio do prazer, este relacionado à manutenção da mais baixa das elevações das tensões e excitações, sendo práticas que, através de uma diminuição do limiar necessário à manutenção da vida e do prazer homeostático, dão um colorido diferente à vida mesmo que através do masoquismo.

Lacan falou em diversos de seus escritos, que o acesso ao gozo é comandado pelo sujeito do inconsciente, sujeito que depende do discurso para se constituir e sustentar e que vive um efeito simbólico de perda com a entrada na linguagem, pois esta inscreve um vazio entre o corpo e o gozo. O corpo é significado de forma a deixar escapar algo do vivido enquanto satisfação. Resta um remanescente desse gozo. Mas o que acontece com o gozo diante do aparecimento desta perda? É aí (1968) que Lacan situou o aparecimento do objeto a. Para conceituar o objeto a, Lacan fez a articulação deste conceito com a mais valia, conceito desenvolvido por Marx apontando para o essencial do funcionamento da sociedade capitalista. Marx evidenciou um sujeito submetido ao social e aos meios de produção, cuja entrada no jogo do capitalismo enquanto proletário faz com que tenha que renunciar a algo, pois sua força de trabalho e seu valor de troca ficam reduzidos ao valor de uso. "Já não idêntico a si mesmo, daí por diante, o sujeito não goza mais. Perde-se alguma coisa que se chama o mais de gozar." 2

Lacan, ao longo do Seminário XVI aproximou a lógica presente na Aposta de Pascal à lógica do sujeito submetido à repetição significante. Partindo das marcas, do traço unário e das identificações, o sujeito se vê enredado numa articulação significante onde se vê apostando no reencontro com o que lhe marcou. "[...] o gozo é almejado num esforço de reencontro, e que só pode sê-lo ao ser reconhecido pelo efeito da marca. A própria marca introduz no gozo a alteração da qual resulta a perda." 3 Repetição esta que, por um lado aponta para o movimento pulsional, cujos objetos assumem a imagem das entidades evanescentes presentes na pulsão oral, anal, escópica e sadomasoquista, (esta ligada à voz e suas modulações) e por outro lado aos significantes que em análise podem revelar um "Tu és isso", repetição que pode tender ao infinito.

Na aposta, na neurose, podemos falar, portanto, mais do que em movimentos de desejo, numa economia do gozo onde se reatualizam demandas voltadas à satisfação pulsional e nestas a busca por recuperar um gozo perdido, podendo existir por vezes uma busca apaixonada por um valor de gozo. Esta busca apaixonada por um valor de gozo se estabelece porque a promessa de recuperação do gozo é reatualizada na fantasia que cada sujeito constrói, a partir da realidade sexual e da castração, e de como diante disso configurou a ideia do Um e do par sexual. Pode assim apostar em Deus, no amor, ou no saber, por exemplo, no campo do Outro edificado como Um, consistente ou onipotente. Suas apostas e demandas, no entanto, em análise, acabam por sempre remeter a um efeito de perda. O trabalho de elaboração conduz a sucessivas destituições subjetivas e para a apreensão do desejo como uma causa que insiste em si.

A repetição do sujeito na neurose pode ser ilustrada com a série de Fibonacci, onde numa série de números, em que o terceiro é a soma dos dois precedentes, encontra-se uma regra de formação e uma razão entre eles que é sempre a mesma: o número áureo. O número/razão áurea é encontrado na natureza em diversas formações, desde o retângulo áureo até os fractais. Alguns já interpretaram que o número áureo indicaria a simetria, a harmonia, a proporção estética, mas outra interpretação possível é que ele aponta para a noção de infinito, num crescimento proporcional cuja razão é sempre a mesma. Assim também podemos pensar que, por mais que o sujeito na neurose busque a harmonia, a simetria, a medida fálica, acaba por reencontrar-se, infinitamente, com a função da perda, e quiçá, com a causa.

Lacan disse ainda que a essência da aposta, ¨[...]está em reduzir nossa vida a essa coisa que podemos segurar assim na palma de uma mão[...]¨4, e resulta da escolha entre o Eu e o a. Nesta escolha, que valor é dado às paixões que muitas vezes sustentam a fantasia do sujeito, e nesta a satisfação pulsional atrelada ao ¨[...] mais de gozar que constitui a coerência do sujeito enquanto eu.¨5 , bem como que valor é dado ao objeto pequeno a, de acordo em como se o subjetiva, ou seja, à perda de gozo, à castração, que podem articular-se com o desejo como causa?

E o que falar da aposta no amor? Por um lado, se tomado na vertente imaginária do fazer Um, pode conduzir à vontade apaixonada de gozar do objeto, e de ser objeto, podendo conduzir a uma posição sacrificial, onde então via sofrimento tenta-se manter uma fantasia de amor onipotente. Por outro lado, e de acordo em como se elabora a castração e a perda de gozo, a aposta no amor parte do reconhecimento das faltas em si e no outro, mesmo que ainda assim se aposte no amor enquanto laço, incluindo o mais de gozar e o objeto a que concerne à mulher enquanto desejante. Assim o objeto a, estará girando em torno dos objetos da pulsão que visam a recuperação do gozo faltante, mas também dará abertura ao gozo feminino, este já a incluir o desejo como causa, infinito.

"Entre o homem e o amor, existe a mulher. Entre o homem e a mulher, existe um mundo. Entre o homem e o mundo, existe um muro."6 Mais do que almejar o encontro perfeito, trata-se de incluir os desencontros, o Real sempre a apontar um vazio, um vazio a dizer inclusive. Sem jamais prescindir, no entanto, das infinitas cartas de amor.

Referências bibliográficas

1.Pascal, Blaise (1660). Pascal´s Pensées (Annotaded). English Edition, 1688, p. 54-55. (Tradução livre).

2, 3, 4, 5. Lacan, Jacques. O Seminário livro 16. De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 21, 119, 117 e 25.

5. Tudal, Antoine(2000). In Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998, p. 290.

Bibliografia

Lacan, Jacques (1968-69). O Seminário livro 16. De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

Lacan, Jacques (1966-67). A lógica do fantasma. Recife, Centro de Estudos Freudianos, publicação interna, 2008.

Freud, Sigmund (1920). Mais-além do princípio do prazer. Obras Completas, vol XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1996.

Freud, Sigmund (1930). O mal estar na civilização. Obras Completas, vol XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1996.